
Um caso que chama atenção pela gravidade e levanta questionamentos sobre ética, respeito ao paciente e imparcialidade na assistência médica veio à tona em Goiânia (GO).
A médica ginecologista e obstetra Marcella Segato de Sousa Melo foi afastada das atividades do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara depois de, segundo denúncia, orientar colegas a não concederem alta hospitalar durante o fim de semana das eleições sob a justificativa de que a maioria dos pacientes seria eleitora do Partido dos Trabalhadores (PT).
A própria direção do hospital confirmou o afastamento e informou que a profissional não retornará às atividades na unidade.
A orientação teria sido publicada em um grupo interno de WhatsApp formado por médicos do hospital, na sexta-feira (2), por volta das 16h58, sendo direcionada aos profissionais que estariam de plantão no sábado e no domingo.
Na mensagem, conforme o conteúdo divulgado, a médica escreveu: “Não é para dar alta para ninguém, a maioria é petista”.
A mensagem teria recebido manifestações de outros integrantes do grupo, incluindo reações com emojis e uma figurinha relacionada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O caso ganhou repercussão depois que o conteúdo das conversas foi encaminhado a um advogado por um interno de medicina que estaria subordinado à médica. O advogado Alan Henrique Silva Marques apresentou denúncia ao Ministério Público Federal.
Independentemente da preferência política de qualquer profissional ou paciente, a assistência médica deve seguir critérios clínicos, técnicos e éticos.
A alta hospitalar não deve ser utilizada como instrumento de pressão política, benefício eleitoral ou punição ideológica. Ela precisa estar relacionada às condições de saúde do paciente e à avaliação da equipe responsável.
É justamente esse aspecto que torna o episódio especialmente grave: se comprovada a orientação e se ela tiver produzido efeitos na assistência, a questão deixa de ser apenas uma manifestação política pessoal e passa a envolver a relação entre posicionamento político e atendimento em saúde.
O Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara afirmou que as manifestações ocorreram em um grupo interno e privado e classificou as declarações como manifestações pessoais dos participantes.
Ao mesmo tempo, a instituição informou que irá apurar internamente a conduta da profissional.
O hospital ressaltou ainda que preferências políticas pessoais não se confundem com as condutas médicas e assistenciais adotadas na unidade.
Segundo a denúncia, a médica teria feito outras manifestações políticas no mesmo grupo antes da mensagem sobre as altas hospitalares.
Entre elas estaria uma referência ao número 22, associado ao Partido Liberal (PL), além de uma suposta promessa de nota máxima no rodízio de medicina para estudantes que votassem em determinado candidato.
Essas informações, assim como o conteúdo das mensagens, ainda precisam ser analisadas pelas autoridades responsáveis pela apuração.
O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) informou que as denúncias relacionadas à médica estão sendo apuradas e tramitam sob sigilo, conforme as regras do Código de Processo Ético-Profissional Médico.
Portanto, neste momento, é importante separar os fatos já confirmados das acusações que ainda serão investigadas.
O hospital confirmou o afastamento da profissional. Já a eventual responsabilidade ética, administrativa ou de outra natureza dependerá das apurações competentes.
O episódio serve também para uma reflexão que ultrapassa o caso específico.
Em um sistema de saúde, público ou privado, o paciente deve ser atendido de acordo com sua necessidade clínica, independentemente de sua religião, condição econômica, raça, posição política ou preferência eleitoral.
O paciente não escolhe o profissional apenas pela ideologia. E o profissional de saúde, ao assumir o compromisso de cuidar, não pode permitir que suas convicções pessoais determinem quem deve ou não receber atendimento adequado.
A medicina exige conhecimento técnico, mas também exige ética, responsabilidade e respeito à dignidade humana.
Se as acusações forem comprovadas, o caso poderá representar uma grave violação desses princípios.
Até a conclusão das investigações, porém, prevalece a necessidade de apuração responsável, com direito de defesa e sem antecipação de culpa.
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