
Terminadas as eleições, o esperado é que cada um volte à sua rotina, que as diferenças políticas fiquem no campo das opiniões e que a vida siga em frente. Afinal, eleição acaba, mas a convivência continua.
Só que tem gente que parece não aceitar muito bem essa ideia.
Pelo Brasil, começaram a circular relatos de listas com nomes de pessoas supostamente identificadas com determinado lado político. Em algumas delas, a orientação seria evitar contratar, comprar produtos ou fazer negócios com quem pensa diferente.
A criatividade humana realmente não tem limites. Pena que, às vezes, ela seja usada para alimentar a intolerância.
Afinal, desde quando a preferência política de alguém determina a qualidade de um serviço, o sabor de uma quitanda ou a competência de um profissional?
Em Carangola, na Zona da Mata mineira, uma história envolvendo uma pedagoga que também produz quitandas caseiras mostra como uma tentativa de prejudicar alguém pode acabar produzindo um resultado completamente diferente do esperado.
Segundo relato divulgado por Thalita Rocha em suas redes sociais, seu nome apareceu em uma dessas listas, acompanhada de uma orientação para que as pessoas não comprassem seus produtos.
Acontece que a internet tem dessas coisas: nem sempre o plano sai como o planejado.
Em vez de afastar os clientes, a repercussão da lista teria despertado a curiosidade de muita gente. Thalita relatou que seu perfil no Instagram saltou de aproximadamente 6 mil para mais de 12 mil seguidores e que as encomendas de suas quitandas triplicaram.
Ou seja: o que nasceu com a intenção de fechar portas acabou abrindo uma vitrine muito maior para o seu trabalho.
É o velho ditado popular funcionando na prática: o feitiço virou contra o feiticeiro!
E fica a pergunta: será que, depois dessa experiência, alguém vai querer fazer propaganda de graça para a concorrência?
Solidariedade tem lado?
Mas a história não termina nas quitandas.
Depois da divulgação do resultado eleitoral, também surgiram relatos de pessoas que anunciaram nas redes sociais que deixariam de doar cestas básicas, medicamentos e outras formas de ajuda. A justificativa, segundo essas manifestações, seria que os beneficiados deveriam passar a cobrar do governo pelos serviços e pela assistência de que necessitam.
É claro que cada pessoa tem liberdade para decidir como e a quem destina seus recursos. Ninguém é obrigado a fazer doações. A questão é outra: a solidariedade deve depender do voto de quem recebe ajuda?
Se alguém estende a mão a uma pessoa necessitada, mas depois condiciona essa ajuda à preferência política dela, vale refletir sobre o verdadeiro sentido desse gesto.
Para os cristãos, a Bíblia traz uma passagem bastante conhecida, em Mateus 6:3: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”.
A mensagem convida à prática da generosidade sem transformar a ajuda em instrumento de exibição ou de recompensa. E, convenhamos, ajudar alguém esperando receber um voto em troca é transformar solidariedade em uma espécie de campanha eleitoral com prazo de validade.
A pessoa que recebe uma cesta básica, um medicamento ou qualquer outro auxílio continua tendo o direito de pensar como quiser. E continua tendo o direito de votar em quem considerar melhor.
O voto é livre e secreto. Não vem com nota fiscal, recibo de gratidão nem obrigação de retribuição nas urnas.
E Lavras, como fica nessa história?
Em Lavras, também houve relatos sobre listas compartilhadas em grupos de WhatsApp. Não há, porém, confirmação de que os efeitos tenham sido os mesmos registrados no caso relatado em Carangola.
Fica a reflexão: será que ainda vamos precisar de listas, boicotes e ameaças de retirar ajuda para aprender que as pessoas podem pensar diferente sem se tornarem inimigas?
A política deveria servir para discutir caminhos, propostas e soluções para os problemas da população. Quando passa a determinar quem merece comprar, vender, trabalhar ou receber solidariedade, alguma coisa saiu do lugar.
No fim das contas, a vida continua, as contas chegam, o pão precisa ser comprado e as quitandas continuam precisando de clientes.
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E, pelo visto, em Carangola, uma lista que pretendia afastar compradores pode ter acabado fazendo justamente o contrário.
Moral da história: antes de tentar prejudicar alguém, é bom pensar duas vezes. Vai que a pessoa acaba ganhando milhares de seguidores, triplica as encomendas e ainda agradece pela divulgação!
Aí fica difícil até reclamar da propaganda gratuita.
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